Em 2025, a CFTC colocou fraude em opções binárias de varejo na mesma discussão de prediction markets, enquanto Connecticut mandou Kalshi, Robinhood e Crypto.com parar de oferecer “sports event contracts”. Entenda o que isso diz sobre a regulação de opções binárias e os riscos para o trader.
Se você opera opções binárias, event contracts ou acompanha o boom de prediction markets, 2025 trouxe um recado bem claro dos reguladores americanos:
para eles, muita coisa que o mercado vende como “investimento”
está sendo tratada como aposta de alto risco – ou até gambling ilegal.
De um lado, a CFTC (regulador federal de derivativos nos EUA) anunciou um Prediction Markets Roundtable que inclui, de forma explícita, o tema “retail binary options fraud and customer protection” e possíveis mudanças nas regras Part 38 e 40, que estruturam a regulação de contratos de evento em bolsas reguladas.
Do outro, o estado de Connecticut emitiu ordens de cease and desist para KalshiEX, Robinhood Derivatives e Crypto.com, dizendo que os “prediction market platforms” estão, na prática, oferecendo apostas esportivas ilegais online, sem licença. No comunicado oficial, o regulador foi direto:
“A prediction market wager is not an investment.”
Neste artigo vamos:
explicar por que a regulação de opções binárias voltou pro centro do debate;
destrinchar o que a CFTC quer discutir no roundtable;
mostrar o que o caso Connecticut x Kalshi/Robinhood/Crypto.com ensina para o trader de varejo;
e tirar lições práticas de proteção e gestão de risco, especialmente pra quem opera em plataformas de binárias/event contracts.
- Por que a regulação de opções binárias voltou com força em 2025?
1.1 De “plataforma de binárias” para “prediction market” de app
Nos últimos anos, o payoff binário (sim/não, tudo ou nada) foi reembalado de várias formas:
opções binárias OTC em corretoras offshore;
event contracts listados em bolsas reguladas (CME, Kalshi, etc.);
prediction markets cripto (Polymarket, por exemplo);
e, mais recentemente, contratos de evento dentro de apps populares como Robinhood e Crypto.com.
Na cabeça do varejo, tudo isso costuma cair no mesmo balde:
“vou apostar se tal coisa vai acontecer ou não, com retorno fixo”.
Na cabeça do regulador, porém, surge um problema:
onde termina gestão de risco/investimento
e começa aposta esportiva/gambling, que é regulada por outra lei (geralmente estadual)?
É exatamente essa linha que a CFTC e estados como Connecticut estão tentando traçar em 2025.
- Tema 1 – O roundtable da CFTC: prediction markets e fraude em binárias na mesma mesa
2.1 O que a CFTC anunciou
Em 2025, a CFTC divulgou um comunicado anunciando o Prediction Markets Roundtable, um encontro com participantes do mercado, acadêmicos, exchanges e outros stakeholders para discutir:
interpretação legal de event contracts;
impacto de decisões judiciais que tratam alguns contratos como “gaming”;
como harmonizar ordens antigas, interpretações de staff e novas práticas de mercado;
e, de forma explícita, “retail binary options fraud and customer protection”;
além de possíveis revisões nas regras Part 38 e Part 40 para lidar melhor com prediction markets.
Ou seja: não é só uma conversa técnica sobre infraestrutura de derivativos.
É também uma mesa para discutir golpes em binárias de varejo dentro do contexto dos novos produtos de evento.
2.2 Por que opções binárias e prediction markets viraram “o mesmo problema”
Na prática, a CFTC está reconhecendo que:
muita fraude em opções binárias OTC migrou para produtos que hoje são chamados de prediction markets;
o varejo não faz distinção fina entre “derivativo exótico” e “aposta sobre jogo ou eleição”;
e as mesmas dores reaparecem em novas embalagens:
manipulação de preço,
promessas irreais de retorno,
dificuldade de saque,
plataformas sem registro.
Ao colocar “retail binary options fraud” na pauta de prediction markets, a CFTC manda um recado:
“se você está vendendo payoff binário para varejo,
mesmo que chame de event contract, vamos olhar isso sob a mesma lente de proteção ao cliente.”
- Tema 2 – Connecticut x Kalshi, Robinhood e Crypto.com: quando vira “aposta ilegal”
3.1 O que Connecticut fez exatamente
Em 3 de dezembro de 2025, o Department of Consumer Protection (DCP) de Connecticut divulgou que sua divisão de jogos emitiu ordens de cease and desist contra:
KalshiEX LLC,
Robinhood Derivatives, LLC,
Crypto.com.
Motivo: segundo o DCP, essas plataformas estariam oferecendo “sports event contracts” que, para o estado, são:
apostas esportivas online não licenciadas,
em violação às leis locais de jogo.
Os pontos principais dos documentos e comunicados:
só entidades licenciadas podem oferecer apostas esportivas no estado;
nenhuma das três tem essa licença;
as plataformas teriam violado regras ao:
oferecer contratos para pessoas abaixo de 21 anos;
anunciar para pessoas em listas de autoexclusão e até em campus universitários;
o DCP afirma que esses sites operam fora dos padrões técnicos e de integridade exigidos de plataformas licenciadas (dados, segurança, house rules, controle de insiders).
No comunicado oficial, o diretor de jogos de Connecticut deixa a frase que virou manchete:
“A prediction market wager is not an investment.”
Em outras palavras:
não adianta vender como “mercado financeiro” se, do ponto de vista do estado, o produto é aposta esportiva disfarçada.
3.2 Kalshi, Robinhood e Crypto.com defendem a tese “derivativo, não aposta”
O outro lado também se manifesta:
Kalshi argumenta que é uma exchange regulada a nível federal, sob supervisão da CFTC, com regras de proibição de insider trading e processo de clearing;
Robinhood diz que seus event contracts são oferecidos via Robinhood Derivatives, LLC, uma entidade registrada na CFTC, permitindo que clientes acessem prediction markets de forma “segura e regulada”.
Na visão dessas empresas:
se o produto é listado em uma DCM (Designated Contract Market) regulada,
então deveria ser tratado como derivativo federal – e não como jogo regulado pelo estado.
O conflito é claro:
federal: “derivativo de evento sob a CFTC”;
estadual: “aposta esportiva não licenciada”.
Isso abre margem para anos de disputa judicial sobre onde começa e termina a competência de cada regulador.
- O que esse embate ensina para o trader de varejo em opções binárias
4.1 Se até Kalshi/Robinhood entram na mira, imagina “sitezinho offshore”
Talvez o ponto mais importante pra quem está no varejo:
Connecticut não foi atrás só de “plataforma shady de paraíso fiscal”;
foi em cima de Kalshi (DCM registrada na CFTC) e Robinhood Derivatives, nomes grandes que se vendem como “regulados e confiáveis”.
Se até esses players entram em conflito com estados sobre:
enquadramento jurídico (derivativo x aposta),
tipo de marketing permitido,
proteção do consumidor,
o que dizer de:
corretoras de opções binárias offshore,
sem licença em jurisdição relevante,
prometendo “até 90% de lucro por operação” e saque fácil?
Para o trader, a lição é dura:
“Regulado” não significa consenso entre reguladores,
muito menos proteção perfeita em qualquer cenário.
Quanto mais longe da estrutura regulatória séria você estiver, maior o risco de:
não receber saque,
ver o site sumir,
ou virar estatística de caso de fraude igual aos dos anos 2010–2018.
4.2 Repetindo o filme 2015–2018 em outra embalagem
Quando a CFTC coloca fraude em binárias de varejo na pauta de prediction markets, e Connecticut chama esses contratos de “unlicensed sports wagering”, ela está, na prática, dizendo:
“já vimos esse filme na época das binárias clássicas”;
“não vamos deixar a mesma lógica se repetir só porque agora se chama event contract ou prediction market”.
Isso vale para:
contratos sobre esportes, eleições, macro, inflação;
produtos “trading-like” oferecidos em apps de investimento;
plataformas cripto que vendem binárias on-chain como “democratização do mercado”.
- Como um trader pode se proteger nesse cenário?
Não é sobre “nunca tocar em binárias/event contracts”.
É sobre não ser o elo mais fraco da cadeia.
Alguns pontos práticos:
5.1 Checar quem regula – de verdade – a plataforma
Existe regulador de mercado de capitais/derivativos sério por trás?
Ou a licença é de uma jurisdição micro, sem histórico de enforcement?
Há registro público no site de reguladores (CFTC, FCA, ASIC, CySEC etc.) que você consiga validar?
Se nem isso existe, o risco de golpe já é alto.
5.2 Entender o produto: derivativo, aposta ou híbrido?
Pergunte a si mesmo:
O contrato que você negocia tem referência clara (taxa de juros, índice, dado macro)?
Ou é aposta sobre placar de jogo, reality show, prêmio de TV?
Quanto mais o produto se parece com aposta esportiva, maior a chance de:
cair em zona cinzenta regulatória;
ser alvo de ações estaduais, como em Connecticut.
5.3 Desconfiar de qualquer promessa de “taxa de acerto garantida”
Reguladores citam, há anos, problemas clássicos de fraude em binárias:
manipulação de software para fazer o cliente perder;
bloqueio de saque;
uso de marketing agressivo com prints irreais;
vendedores que se passam por “analistas”, mas só ganham quando você perde.
Sempre que você ver:
“robô mágico de 90% de acerto”;
“renda diária garantida com CALL/PUT”;
“sala de sinais que nunca perde”;
trate como red flag máxima.
5.4 Gestão de risco e tamanho de posição
Mesmo em plataformas sérias:
event contracts e binárias têm payoff tudo ou nada;
é muito fácil superalavancar a conta sem perceber.
Regras mínimas:
risco pequeno por operação (ex.: 0,5%–1% do capital, no máximo);
limite diário/semanal de perda;
não operar com dinheiro de conta que você precisa pra viver.
Lembrando: não existe estrutura regulatória que te proteja de má gestão de risco.
FAQ – CFTC, Connecticut e regulação de opções binárias em 2025
- O que é esse Prediction Markets Roundtable da CFTC?
É um encontro anunciado pela CFTC para discutir:
como regular prediction markets e event contracts;
impactos de decisões judiciais que tratam alguns contratos como “gaming”;
e, de forma explícita, fraude em opções binárias de varejo e proteção ao cliente, além de possíveis revisões nas regras Part 38 e 40.
É um sinal de que o órgão está olhando binárias e event contracts como parte de um mesmo problema regulatório.
- Por que Connecticut mandou Kalshi, Robinhood e Crypto.com parar?
Porque o regulador de consumo de Connecticut entende que:
os “sports event contracts” oferecidos por essas plataformas são, na prática, apostas esportivas online não licenciadas;
as empresas não têm licença de sportsbook no estado;
e ainda teriam oferecido contratos para menores de 21 anos e pessoas em lista de autoexclusão.
Por isso, expediu ordens de cease and desist e reforçou que “a prediction market wager is not an investment”.
- Isso significa que opções binárias são ilegais?
Depende da jurisdição e do formato do produto.
Em alguns países, binárias para varejo foram banidas ou severamente restringidas;
em outros, são permitidas apenas em bolsas reguladas, sob regras rígidas;
e em muitos lugares, o problema central são as plataformas offshore sem supervisão.
O ponto é:
mesmo onde não são ilegais, costumam ser vistas como produto de alto risco, com histórico de golpe e marketing abusivo.
- Prediction markets são investimento ou aposta?
Para reguladores como a CFTC, event contracts podem ser derivativos, desde que:
listados em mercados regulados,
respeitando certas restrições de produto.
Para estados como Connecticut, porém, “sports event contracts” são aposta esportiva, sujeita às leis de jogo locais.
Na prática, a linha é tênue e está sendo definida caso a caso.
- Sou trader de binárias no Brasil. Isso me afeta?
Diretamente, não – você não está sob a lei de Connecticut ou da CFTC.
Mas indiretamente, sim:
essas decisões mostram como reguladores pensam sobre produtos de payoff binário;
dão pistas de quais práticas (marketing agressivo, fraude, falta de transparência) chamam mais atenção;
e antecipam um possível movimento de aperto regulatório em outras jurisdições.
Se você opera binárias, faz sentido:
priorizar plataformas mais sérias e transparentes;
evitar promessas de “dinheiro fácil”;
tratar sempre como produto de altíssimo risco, não como atalho para enriquecer.
Conclusão: binárias, prediction markets e a nova fase do “mesmo problema”
A dupla que você trouxe resume bem 2025:
a CFTC coloca fraude em opções binárias de varejo e proteção ao cliente dentro da discussão oficial sobre prediction markets e event contracts, abrindo a porta para revisar regras estruturais (Part 38 e 40);
Connecticut vai além e diz que os sports event contracts de Kalshi, Robinhood e Crypto.com são apostas esportivas ilegais, deixando claro que “prediction market wager is not an investment”.
Para o trader, a mensagem é simples:
pouco importa o rótulo – opção binária, event contract, prediction market.
Se o produto é tudo ou nada, vendido ao varejo como atalho para dinheiro rápido,
ele vai cair no radar dos reguladores como alto risco ou aposta disfarçada.
Seu trabalho, como trader sério, é:
fugir de plataformas e promessas suspeitas;
usar gestão de risco rígida;
tratar esse tipo de produto como exposição tática e especulativa, e não como base de patrimônio.



