A compra de 90% da LedgerX por Robinhood e Susquehanna marca a entrada agressiva em contratos de evento regulados pela CFTC. Entenda como isso é um “repack” institucional das opções binárias e o que fintechs querem com prediction markets no app de varejo.
Se você acha que opções binárias são coisa de site duvidoso em ilha exótica, vale atualizar o radar.
Nos EUA, Robinhood e Susquehanna acabaram de fechar acordo para comprar 90% da LedgerX, uma exchange de derivativos regulada pela CFTC, ex-FTX e hoje controlada pela MIAX. A ideia é clara: montar uma nova bolsa de futuros, derivativos e contratos de evento, com clearing próprio, usando a infraestrutura e as licenças da LedgerX.
Ao mesmo tempo, o hub de prediction markets da própria Robinhood já virou um monstro:
- mais de 9 bilhões de contratos de evento negociados desde o lançamento em março;
- 2,3 bilhões de contratos só no terceiro trimestre, mais que o dobro do trimestre anterior;
- cerca de 1 milhão de clientes usando a funcionalidade, que já caminha para mais de US$ 300 milhões em receita anualizada.
Em paralelo, Coinbase se mexe com a Kalshi para lançar sua própria plataforma de prediction markets dentro da estratégia de “everything exchange”.
Na prática, o que está acontecendo é um “repack institucional” do payoff binário:
o golpe visual é de “contratos de evento” moderninhos, mas a lógica econômica continua muito parecida com uma opção binária (paga 0 ou 1 na data de expiração).
Neste artigo, você vai ver:
- O que é o deal Robinhood + Susquehanna + LedgerX e por que isso importa;
- Como prediction markets se tornaram uma nova linha de receita dentro do app de varejo;
- A diferença entre esse modelo e as “binárias raiz” de offshore;
- E o que um trader brasileiro pode tirar de lição disso, sem cair em hype.
1. O movimento Robinhood + Susquehanna + LedgerX em detalhes
1.1 Quem é a LedgerX nessa história?
A LedgerX é uma exchange de derivativos dos EUA que:
- já foi comprada pela FTX US, rebatizada como FTX US Derivatives;
- depois da falência, foi vendida para o grupo Miami International Holdings (MIAX) por cerca de US$ 50 milhões;
- opera como plataforma regulada com licenças de Designated Contract Market (DCM), Derivatives Clearing Organization (DCO) e, em alguns casos, Swap Execution Facility (SEF), todas sob supervisão da CFTC.
Agora, Robinhood e Susquehanna:
- firmaram acordo para adquirir 90% da LedgerX, deixando a MIAX com 10% e acesso à infraestrutura;
- planejam, com isso, lançar uma nova bolsa de futuros e derivativos em 2026, focada em contratos de evento (prediction markets) e produtos ligados a cripto, taxas de juros, esportes e macro.
Traduzindo:
Em vez de operar “contratos binários” em cima de uma corretora OTC, Robinhood está comprando a própria infraestrutura de bolsa e clearing para listar esses payoffs dentro de um arcabouço regulado.
1.2 Por que Susquehanna está no jogo?
A Susquehanna International Group é um dos maiores market makers e trading firms do mundo, com presença pesada em opções, derivativos e, mais recentemente, cripto.
Faz todo sentido estratégico:
- Robinhood traz marca, base de varejo e front-end;
- Susquehanna traz capital, expertise em derivativos e capacidade de fazer mercado nesses contratos;
- LedgerX traz licença e infraestrutura regulada para tudo isso rodar com clearing centralizado.
Resultado:
um “Frankenstein” poderoso de fintech de varejo + prop trading gigante + exchange regulada, tudo em volta de contratos de evento.
2. Prediction markets como nova linha de receita no app de varejo
2.1 Os números da Robinhood: 9 bilhões de contratos não são brincadeira
Desde que Robinhood lançou seu hub de prediction markets/event contracts em março de 2025, a curva de uso é vertical:
- mais de 9 bilhões de contratos de evento já foram negociados;
- 2,3 bilhões de contratos só no terceiro trimestre, número que dobrou em relação ao Q2;
- mais de 1 milhão de clientes já fizeram pelo menos uma operação em event contracts;
- analistas estimam que só essa linha deve gerar mais de US$ 300 milhões em receita anualizada em 2026.
Além disso, o anúncio do deal com a LedgerX fez as ações da empresa subirem perto de 10% em um dia, em uma alta acumulada de mais de 200% no ano, justamente pela empolgação do mercado com prediction markets como nova avenida de crescimento.
2.2 Por que fintechs estão obcecadas com contratos de evento?
Alguns motivos bem práticos:
- Engajamento absurdo
Contratos de evento são quase um “TikTok do mercado”:- payoff simples (sim/não, acima/abaixo);
- temas que o varejo já acompanha (eleições, futebol, inflação, cripto, macro);
- curva de aprendizado mais rápida que opções tradicionais.
- Receita recorrente de negociação
Cada contrato negociado paga taxa. Quando você fala de bilhões de contratos por trimestre, as taxas viram uma linha muito relevante de receita. - Dados de probabilidade
As odds de mercado viram “preço de probabilidade”, integrável em news, apps, home brokers e até portais como Yahoo Finance ou Google, como já acontece com Polymarket. - Cross-sell de produtos
O usuário entra pra “apostar” no resultado da eleição, mas acaba:- abrindo conta de corretora;
- tomando crédito colateralizado;
- usando cartão, banking, etc.
É literalmente um funil gamificado de onboarding financeiro.
2.3 Coinbase, Kalshi e a corrida dos apps
Robinhood não está sozinha.
Coinbase já deixou público que quer virar uma “everything exchange” e:
- anunciou parceria com a Kalshi, uma DCM regulada pela CFTC focada em event contracts;
- está construindo uma interface própria de prediction markets (com categorias de economia, política, esportes, ciência, tecnologia), usando USDC e USD e o “guarda-chuva regulatório” da Kalshi para oferecer contratos de evento na plataforma.
Ao mesmo tempo, players como Polymarket ganharam sinal verde da CFTC para voltar a operar com clientes dos EUA através de corretoras reguladas, o que está chamando ainda mais atenção para o espaço de prediction markets.
Mensagem do mercado:
Contratos de evento deixaram de ser brincadeira de nicho.
Viraram uma nova categoria de produto que fintechs de varejo e infra de mercado estão disputando abertamente.
3. Isso é diferente de opções binárias clássicas? Sim e não.
3.1 Mesma lógica de payoff, outra embalagem
No nível de payoff, o paralelo é direto:
- Event contract / prediction market:
- você compra “SIM” ou “NÃO” para um evento (Ex.: “Fed corta juros até março?”);
- o contrato vale entre 0 e 1 (ou 0 e 100);
- na liquidação, paga 1/100 se o evento ocorrer, 0 se não.
- Opção binária típica de plataforma OTC:
- você aposta se o ativo estará acima/abaixo de um preço em um tempo específico;
- se acerta, recebe um payout fixo (ex.: 80%);
- se erra, perde tudo.
Na prática, estamos sempre falando de payoff binário – tudo ou nada.
3.2 O que muda: infraestrutura, regulação e conflito de interesses
Onde a história muda bastante é na forma como isso é estruturado:
- Binária OTC “clássica”
- corretora offshore muitas vezes toma o outro lado da sua posição;
- pouca transparência de livro de ordens;
- modelagem de payout e preço fica 100% dentro de casa;
- muitas não têm supervisão séria, KYC/AML efetivo ou segregação de recursos.
- Contratos de evento em bolsa regulada (LedgerX, Kalshi, etc.)
- listados em DCMs reguladas pela CFTC;
- liquidados via clearinghouse (DCO), com regras claras de margem, risco e resolução;
- dados de preço e profundidade de mercado são públicos;
- participantes passam por KYC/AML rigoroso, e há reporting para o regulador.
Isso não transforma o produto em “investimento seguro” – o payoff continua extremamente especulativo, com risco de perda total.
Mas a governança é outra: há regras, supervisão, mecanismos de disputa, auditoria e sanções.
3.3 Derivativo ou aposta? A fronteira ainda é cinzenta
Mesmo em ambiente regulado, o debate não está 100% resolvido:
- A CFTC segue discutindo o que é hedge econômico legítimo e o que é puro “gaming” em contratos de evento (principalmente em esportes e eleições);
- Casos como o da Kalshi em Nevada mostram que estados podem enquadrar certos contratos binários como jogo de azar sob lei estadual, mesmo que a plataforma tenha registro federal.
Ou seja:
Regulador financeiro e regulador de apostas ainda estão “puxando a corda” para lados diferentes.
O que hoje parece derivativo, amanhã pode ser classificado como jogo (ou vice-versa).
4. O que um trader brasileiro precisa enxergar nesse movimento
Mesmo que um investidor brasileiro ainda não tenha acesso simples a esses contratos, o movimento traz alguns recados importantes:
4.1 A lógica de binárias não vai sumir – ela vai mudar de roupa
Reguladores podem:
- banir binárias como produto de varejo em determinadas jurisdições;
- limitar ou reclassificar event contracts.
Mas, enquanto existir demanda por:
- instrumentos simples de sim/não,
- payoff tudo ou nada,
- e possibilidade de expressar uma opinião sobre um evento específico,
o mercado financeiro vai tentar:
encaixar isso dentro de alguma estrutura – seja bolsa, app, exchange ou prediction market on-chain.
4.2 “Se está em app grande, então é seguro” – cuidado com esse atalho mental
Ver Robinhood, Coinbase, ICE, Polymarket, Kalshi nessa arena pode passar a sensação de:
“Agora é coisa séria, então o risco caiu.”
O que muda é:
- governança, compliance, supervisão – de fato melhores;
- risco de fraude operacional – tende a ser menor em infra séria.
O que não muda:
- risco de perder 100% do capital por operação;
- volatilidade extrema antes de eventos binários (eleição, decisão de juros etc.);
- possibilidade de ciclo de euforia/colapso.
Estratégia responsável:
- tratar contratos de evento como exposição tática e de alto risco,
- não como “nova renda extra” ou “substituto de renda fixa”.
4.3 Cuidado com clones e narrativas no Brasil e em offshore
Sempre que um tema esquenta lá fora, aparecem:
- plataformas offshore dizendo “somos o Robinhood das binárias”;
- sites que usam o discurso de “derivativo regulado lá fora” para vender produto completamente diferente para brasileiro.
Checklist mínimo:
- A empresa tem licença onde você mora ou só em offshore obscuro?
- Existe segregação de recursos e saque historicamente funcionando?
- O produto é claramente rotulado como alta especulação, ou é vendido como “investimento seguro com 90% de acerto”?
Se a comunicação já começa com:
“só seguir o sinal e sacar todo dia, sem risco”
você não está olhando para o mesmo universo em que Robinhood, LedgerX e CFTC operam.
FAQ – Robinhood, LedgerX e contratos de evento (para rich snippet)
1. O que é a LedgerX e por que Robinhood e Susquehanna querem comprar 90%?
A LedgerX é uma exchange de derivativos dos EUA, regulada pela CFTC, ex-FTX e hoje controlada pela MIAX. Robinhood e Susquehanna fecharam acordo para adquirir 90% da empresa, deixando a MIAX com 10%, com o objetivo de lançar uma bolsa de futuros, derivativos e contratos de evento com clearing próprio a partir de 2026.
2. Prediction markets são a mesma coisa que opções binárias?
Na essência do payoff, são muito parecidos:
você aposta em um resultado de sim/não e recebe tudo ou nada na liquidação.
A diferença está na forma de operação:
- Em prediction markets regulados (LedgerX, Kalshi), os contratos são listados em bolsa com clearing central e supervisão da CFTC;
- Em muitas binárias OTC, o broker é a contraparte, sem transparência e com pouco ou nenhum oversight.
O risco financeiro continua alto em ambos.
3. Quanto os prediction markets representam hoje dentro da Robinhood?
Os números divulgados indicam que:
- mais de 9 bilhões de contratos de evento foram negociados desde o lançamento em março;
- 2,3 bilhões de contratos no Q3/2025, mais que o dobro do trimestre anterior;
- cerca de 1 milhão de clientes já usam produtos de prediction markets;
- analistas projetam mais de US$ 300 milhões em receita anualizada com essa linha a partir de 2026.
4. Outras fintechs, como Coinbase, também vão oferecer contratos de evento?
Sim.
A Coinbase já anunciou que quer se tornar uma “everything exchange” e:
- está construindo uma interface própria de prediction markets;
- em parceria com a Kalshi, que cuida da parte regulatória e do custódia de USDC para esses contratos.
Outras casas (Crypto.com, Gemini, etc.) também estudam modelos similares.
5. Um investidor brasileiro consegue operar esses contratos hoje?
Em geral:
- o acesso direto é restrito a residentes nos EUA ou clientes que passam por KYC específico, dentro das regras de cada bolsa/plataforma;
- operar via VPN, sem cumprir requisitos legais, pode representar risco jurídico e de bloqueio de conta.
Para a maior parte dos brasileiros, faz mais sentido acompanhar como tendência e olhar com calma para se, quando e como produtos semelhantes forem lançados por aqui, sempre avaliando risco e regulação.
6. Esse movimento torna opções binárias “mais seguras”?
Torna alguns formatos de payoff binário melhor estruturados e mais transparentes, quando:
- listados em mercados regulados;
- com clearing, governance, KYC/AML e reporting.
Mas não torna o payoff em si seguro.
A ideia de “tudo ou nada em um evento” continua significando alta probabilidade de perda total do capital em uma operação específica, principalmente se o usuário não tiver gestão de risco.
Conclusão: opções binárias versão Wall Street – oportunidade ou mascarada?
O caso Robinhood + Susquehanna + LedgerX mostra que:
- Payoffs binários e contratos de evento não vão desaparecer – estão sendo absorvidos por infraestrutura institucional;
- Prediction markets já são linha de receita relevante dentro de apps de varejo, com bilhões de contratos e centenas de milhões de dólares em potencial;
- A disputa entre fintechs (Robinhood, Coinbase, exchanges cripto) é por quem vai ser o hub principal dessa nova categoria.
Para você, trader ou investidor brasileiro, a leitura madura é:
- Ver esse movimento como tendência estrutural – derivativos cada vez mais “gamificados”;
- Entender que regulação melhora governança, mas não elimina risco financeiro;
- E usar essa visão para filtrar melhor propostas de plataformas, sinais, robôs e “produtos milagrosos” travestidos de inovadores.



