Meta description: Panetta (BCE/Itália) diz que dinheiro de bancos comerciais tende a se tornar totalmente tokenizado, reforçando tokenização no TradFi e foco em infraestrutura.
Introdução
A conversa sobre “dinheiro digital” costuma ficar presa em duas caixas: stablecoins e CBDCs. Mas há um terceiro caminho, menos popular no varejo e mais decisivo para o sistema financeiro: depósitos bancários tokenizados. É justamente isso que ganha peso quando Panetta, ligado ao BCE e à Itália, afirma que o dinheiro de bancos comerciais tende a se tornar totalmente tokenizado.
A fala sinaliza uma visão estratégica: tokenização não vai ficar na periferia do mercado. Ela pode atingir o núcleo do sistema bancário o dinheiro que circula entre empresas, bancos, plataformas e infraestrutura de liquidação. E, nessa leitura, stablecoins teriam papel mais secundário por dependerem, no fim das contas, de moedas tradicionais.
O que significa “dinheiro de bancos comerciais totalmente tokenizado”
Dinheiro de bancos comerciais é, na prática, o saldo que empresas e pessoas mantêm em bancos: depósitos, contas e saldos que sustentam pagamentos e crédito.
Quando esse dinheiro “vira tokenizado”, a ideia é que:
- O depósito passe a existir como uma representação digital tokenizada
- Transferências possam ocorrer em trilhos programáveis
- Liquidação e conciliação possam ser mais automáticas e contínuas
- A integração com sistemas de mercado e pós-trade seja mais eficiente
Isso não é “cripto” no sentido clássico. É modernização do encanamento do dinheiro bancário.
Por que isso importa: tokenização chegando ao núcleo do sistema
O “por que importa” dessa visão está em três pontos.
Escala real
A maior parte do dinheiro que move mercados está no sistema bancário. Se depósitos viram tokenizados, a tokenização sai de nicho e passa a operar onde há volume, governança e padrões.
Eficiência de liquidação
Tokenizar depósitos pode reduzir fricções como:
- Reconciliações demoradas entre instituições
- Dependência de janelas operacionais
- Custos de pós-trade e intermediários
- Tempo com dinheiro “em trânsito”
Integração com ativos tokenizados
Se ativos tokenizados crescem (títulos, fundos, crédito), faz sentido que o “dinheiro” que liquida esses ativos também evolua. Esse casamento é o que transforma tokenização em infraestrutura completa.
Depósitos tokenizados vs stablecoins: por que stablecoins seriam “secundárias” nessa leitura
A comparação não é “uma vai matar a outra”. É sobre hierarquia de uso no sistema financeiro.
O que stablecoins fazem bem
- Movimentação rápida em ambientes digitais
- Integração com ecossistemas cripto e pagamentos globais
- Liquidez disponível 24/7 em certos trilhos
Onde stablecoins enfrentam limites no TradFi
- Dependência do emissor e das reservas
- Exigências regulatórias mais sensíveis para uso sistêmico
- Dificuldade de ser “a camada principal” do dinheiro bancário
Já o depósito tokenizado tem uma vantagem: ele é uma extensão do dinheiro bancário tradicional, com supervisão e integração mais direta ao sistema.
Alerta importante
Stablecoins podem parecer estáveis, mas envolvem riscos de emissor, reservas, acesso e mudanças regulatórias. Não equivalem a depósito bancário e não garantem estabilidade perfeita em qualquer cenário.
O foco muda para infraestrutura e padrões
Quando se fala em tokenizar o núcleo bancário, o debate vira menos “ativo” e mais “trilho”.
Os temas que passam a decidir o jogo:
- Interoperabilidade entre bancos e sistemas
- Padrões de mensagens e dados
- Governança e responsabilidades em falhas e disputas
- Custódia, segurança operacional e controles
- Integração com clearing e liquidação
Sem padrões, tokenização vira um conjunto de ilhas. Com padrões, vira infraestrutura de mercado.
O que isso pode mudar no mercado financeiro digital
Se depósitos tokenizados ganham tração, três frentes tendem a ser impactadas:
Pagamentos e tesouraria corporativa
- Pagamentos mais programáveis e integrados a fluxos de negócio
- Melhor rastreabilidade e automação de conciliação
- Possível redução de fricção em pagamentos de alto valor
Mercados e pós-trade
- Liquidação mais rápida e eficiente
- Melhor uso de garantias e colateral
- Redução de custo operacional em cadeias longas de intermediação
Tokenização de ativos tradicionais
- Maior viabilidade para títulos, fundos e crédito tokenizados
- Dinheiro tokenizado como camada de settlement compatível
- Crescimento de infraestrutura híbrida TradFi + trilhos digitais
O que pode travar a implementação
Mesmo sendo uma tese forte, o caminho é gradual e depende de:
- Alinhamento regulatório e prudencial
- Integração com sistemas legados bancários
- Incentivo econômico claro (custo e eficiência)
- Governança aceita entre múltiplos bancos e jurisdições
- Segurança operacional em escala
Ou seja: a tecnologia é parte. A coordenação é o principal desafio.
FAQ
O que são depósitos tokenizados de bancos comerciais?
São representações tokenizadas de dinheiro bancário (depósitos), permitindo movimentação e liquidação em trilhos digitais programáveis, com governança bancária.
Isso substitui stablecoins?
Não necessariamente. A ideia é que depósitos tokenizados virem a camada principal no sistema bancário, enquanto stablecoins podem continuar relevantes em nichos e integrações específicas.
Por que o BCE defenderia tokenização no núcleo bancário?
Porque tokenização pode aumentar eficiência, reduzir fricção de liquidação e melhorar integração com mercados e ativos tokenizados, mantendo supervisão tradicional.
Isso significa CBDC?
Não. Depósitos tokenizados são dinheiro de bancos comerciais. CBDC é dinheiro do banco central. São camadas diferentes.
Quando isso pode chegar ao usuário comum?
Provavelmente de forma gradual e “invisível” via produtos bancários e infraestrutura. O varejo pode sentir em UX e velocidade, sem perceber o trilho por trás.
Conclusão
A fala de Panetta reforça uma tese central do ciclo: tokenização tende a atingir o núcleo do TradFi, com depósitos bancários caminhando para se tornar totalmente tokenizados. Isso desloca o debate para onde a escala acontece: infraestrutura, interoperabilidade e padrões. Stablecoins seguem relevantes, mas, nessa visão, como camada complementar e não como o centro do sistema bancário.



