Em 2025, a CFTC colocou fraude em opções binárias na pauta oficial de prediction markets e venceu um caso de US$ 451 milhões contra um esquema global. Entenda o que isso revela sobre o futuro dos produtos binários.
Introdução: o “novo binário” chega, mas o regulador ainda está preso aos velhos golpes
De um lado, o mercado fala de event contracts, prediction markets e “opções binárias 2.0” rodando em exchanges reguladas, com parcerias em TV e discussão sobre inovação.
Do outro lado, o principal regulador de derivativos dos EUA, a CFTC, abre 2025 fazendo duas coisas ao mesmo tempo:
- anuncia um Prediction Markets Roundtable, deixando claro que o evento vai tratar, entre outros temas, de “retail binary options fraud and customer protection” e possíveis mudanças nas regras Part 38 e Part 40 para esses mercados;
- comemora uma vitória histórica na Justiça: uma sentença de mais de US$ 451 milhões contra um esquema global de fraude em opções binárias, usando as marcas BigOption, BinaryBook e BinaryOnline para enganar clientes no mundo inteiro.
Traduzindo:
enquanto o payoff binário tenta se reinventar em versão regulada,
a CFTC ainda está apagando o incêndio deixado pelas binárias “clássicas”.
Neste artigo, vamos ver:
- por que o roundtable de prediction markets da CFTC colocou fraude em opções binárias no centro da discussão;
- o que foi, na prática, o caso de US$ 451 milhões contra BigOption/BinaryBook/BinaryOnline;
- e o que tudo isso ensina para quem ainda opera ou pensa em operar produtos binários hoje.
1. Prediction Markets Roundtable: CFTC coloca fraude em opções binárias na mesma mesa que event contracts
1.1. O que é esse roundtable e por que ele importa
Em fevereiro de 2025, a CFTC anunciou oficialmente que iria realizar um Prediction Markets Roundtable, um encontro público com especialistas, exchanges, acadêmicos, players de jogo e representantes de investidores para discutir o futuro da regulação de prediction markets e event contracts, incluindo contratos ligados a esportes.
No comunicado, a CFTC deixa claro que o objetivo é:
- montar um “registro administrativo robusto”, com dados, estudos e opiniões;
- revisar obstáculos regulatórios atuais para esses mercados;
- discutir como equilibrar inovação com proteção ao investidor.
Entre os tópicos listados, aparecem:
- decisões anteriores da própria CFTC sobre contratos de evento;
- conflitos com leis estaduais de jogo;
- questões constitucionais (direitos dos estados, federalismo, etc.);
- e, de forma bem explícita, “retail binary options fraud and customer protection”, além de possíveis revisões de Part 38 e Part 40 das regras da Comissão.
Ou seja: para o regulador, não existe discussão séria sobre prediction markets sem falar de:
- histórico de golpes em opções binárias de varejo;
- proteção ao cliente;
- e regras estruturais para evitar repetir 2014 2018 em outra embalagem.
Mesmo que o evento tenha sido posteriormente cancelado/adiado, analistas apontam que o simples fato de a CFTC ter desenhado essa agenda já mostra a direção: event contracts e binárias OTC passaram a ser tratados como “o mesmo problema regulatório”.
1.2. Por que event contracts e binárias OTC viraram “um pacote só”
Na prática, o raciocínio é simples:
- opções binárias OTC de varejo: payoff sim/não, prazos curtos, forte componente de marketing agressivo, histórico de fraude;
- prediction markets/event contracts: payoff sim/não sobre eventos (esportes, eleições, dados macro), agora muitas vezes listados em DCMs e plataformas registradas.
Do ponto de vista da CFTC, ambos envolvem:
- o mesmo tipo de estrutura binária de payoff;
- o mesmo risco de vender “ganho rápido” para varejo;
- potencial de manipulação, assimetria de informação e abuso.
Por isso, faz sentido:
- discutir fraude em binárias de varejo e regulação de prediction markets na mesma mesa;
- revisar regras como Part 38 e 40 para ajustar exigências de transparência, limites de produto, supervisão e suitability em event contracts.
Para o trader brasileiro que acompanha esse mercado, o recado é claro:
se você acha que “binária é coisa do passado, agora é tudo event contract”,
o regulador não enxerga assim. Para ele, o problema raiz é o mesmo, e a resposta regulatória futura tende a vir em pacote só.
2. A sentença de US$ 451 milhões: BigOption, BinaryBook, BinaryOnline e o auge do modelo de golpe
2.1. O caso: o que o tribunal decidiu
Em 29 de janeiro de 2025, o Tribunal Distrital do Norte de Illinois emitiu um default judgment (sentença à revelia) contra cinco empresas offshore e três indivíduos, todos ligados a um esquema global de fraude em opções binárias de varejo.
Os nomes mais conhecidos:
- Yukom Communications Ltd. (Israel);
- Linkopia Mauritius Ltd. (Maurício);
- Wirestech Limited d/b/a BigOption;
- WSB Investments Ltd. d/b/a BinaryBook;
- Zolarex Ltd. d/b/a BinaryOnline;
- e os indivíduos Yossi Herzog, Lee Elbaz e Shalom Peretz.
A corte determinou que:
- o grupo é responsável por um esquema que durou de 2014 até 2019, usando sites como BigOption, BinaryBook e BinaryOnline para enganar investidores;
- eles devem pagar cerca de US$ 112,9 milhões em restituição às vítimas e US$ 338,7 milhões em multa civil, totalizando mais de US$ 451 milhões;
- os réus ficam permanentemente banidos de se registrar na CFTC ou operar em mercados regulados.
2.2. Como o golpe funcionava na prática
Os documentos da CFTC e da própria sentença detalham um roteiro que, infelizmente, é bem conhecido de quem acompanha o mercado:
- Promessas enganosas de lucratividade
- Corretores ligavam ou mandavam e-mails dizendo que operar binárias era altamente lucrativo, com retornos rápidos e “simples”;
- na realidade, a maioria dos clientes perdia dinheiro sistematicamente.
- Identidades falsas e currículos inventados
- “Consultores” se apresentavam como ex-Wall Street, gestores experientes ou analistas de bancos americanos, quando na verdade atuavam de call centers offshore;
- nomes, localizações e qualificações eram frequentemente falsos.
- Manipulação de plataforma e “ajuste” de risco
- configurações internas de risco eram alteradas para reduzir as chances de o cliente ficar “in the money”;
- havia relatos de alteração de parâmetros de expiração, payout e até resultado a favor da casa.
- Bônus e trades “sem risco” com pegadinha
- eram oferecidos “bônus” e “operações sem risco”, que na verdade vinham com termos escondidos;
- esses termos exigiam volumes de negociação muitas vezes impossíveis antes de permitir saque, travando na prática o dinheiro do cliente.
- Bloqueio de saque e omissão de informações
- quando o cliente tentava sacar, vinha uma barreira atrás da outra: documentos extras, prazos, alegações de “violação de termos” etc.;
- a estratégia era empurrar o investidor a continuar operando até zerar a conta.
Esse caso se conecta diretamente à campanha educacional da CFTC e da SEC sobre Binary Options Fraud, em que os órgãos alertam o público para exatamente esses sinais: recusa de crédito na conta, bloqueio de saque, manipulação de software e roubo de identidade.
2.3. Por que isso ainda importa em 2025, se “essa fase já passou”?
Justamente porque não passou totalmente.
- A sentença de 2025 deriva de um processo aberto em 2019, ou seja, a CFTC está terminando de limpar um ciclo de golpes que explodiu entre 2014 e 2018.
- Ao mesmo tempo, o mercado vê nascer uma nova geração de produtos binários (event contracts, prediction markets, binárias on-chain), que podem repetir as mesmas narrativas: lucro fácil, “robôs” milagrosos, salas de sinais, etc.
É por isso que faz todo sentido:
- a CFTC anunciar um roundtable de prediction markets e enfiar, no meio da pauta, fraude em opções binárias de varejo;
- e, ao mesmo tempo, divulgar com força a sentença de US$ 451 milhões como exemplo de que esse tipo de golpe não ficou impune.
3. O que tudo isso ensina para quem opera produtos binários hoje
3.1. Regulador não esquece ele demora, mas chega
O caso BigOption/BinaryBook/BinaryOnline mostra que:
- pode levar anos entre o auge do golpe e a condenação;
- mas, quando vem, a resposta é pesada: multa bilionária, proibição de atuar, cooperação com procuradores e até cadeia para envolvidos.
Isso importa por quê?
Porque muitos golpes atuais seja em binárias puras, seja em event contracts “fantasiados”, seja em produtos on-chain estão repetindo a mesma fórmula:
- prometer taxa de acerto absurda;
- mostrar prints de lucros irreais;
- travar saque quando o cliente finalmente ganha;
- escorar a narrativa em “é regulado em tal lugar” sem que isso signifique, de fato, proteção.
3.2. Para o varejo, continua valendo a regra básica: desconfie de promessas
Alguns filtros práticos para quem está no varejo:
- Cheque registro
- nos EUA, a própria CFTC recomenda consultar o NFA BASIC antes de mandar qualquer dinheiro;
- no Brasil, olhar CVM, Banco Central ou, no mínimo, se a empresa tem algum tipo de licença séria em outra jurisdição.
- Desconfie de plataformas que:
- prometem “80% de lucro por operação garantido”;
- dificultam ou condicionam saque a volumes irreais de operação;
- empurram bônus com termos que você não entende;
- não deixam claro quem é o regulador e onde a empresa está registrada.
- Entenda que payoff binário é produto de alto risco
- independentemente da embalagem (binária clássica, event contract, binária on-chain), o formato sim/não com perda potencial de 100% é sempre de alto risco;
- isso exige gestão de risco, tamanho de posição pequeno e aceitação de perder dinheiro, não casa com promessa de renda fácil.
FAQ Fraude em opções binárias, CFTC e prediction markets
1. O que é o Prediction Markets Roundtable da CFTC?
É (ou era) um encontro público anunciado pela CFTC em fevereiro de 2025 para discutir regulação de prediction markets e event contracts, incluindo: esportes, jogos, eleições e outros eventos. A agenda incluía fraude em opções binárias de varejo e possíveis revisões das regras Part 38 e 40 para tratar melhor desses produtos.
2. Por que a CFTC colocou fraude em opções binárias na mesma pauta de prediction markets?
Porque, do ponto de vista do regulador:
- o payoff é parecido (sim/não, tudo ou nada);
- o público alvo é, muitas vezes, o mesmo varejo que já sofreu com golpes em binárias clássicas;
- e o risco de marketing enganoso e venda de “ganho rápido” continua existindo.
Por isso, faz sentido discutir proteção ao cliente e fraude junto com inovação nesse segmento.
3. O que foi a sentença de US$ 451 milhões contra BigOption, BinaryBook e BinaryOnline?
Foi uma decisão da Corte Distrital do Norte de Illinois, em janeiro de 2025, condenando cinco empresas offshore e três indivíduos por um esquema global de fraude em opções binárias de varejo.
A corte determinou mais de US$ 451 milhões em sanções (restituição + multa civil) e baniu os réus de operar em mercados regulados pela CFTC.
4. Que tipo de golpe esses sites aplicavam?
Segundo a CFTC e a decisão judicial:
- promessas falsas de alta lucratividade;
- corretores com identidades e currículos falsos;
- manipulação da plataforma e das configurações de risco para dificultar lucro do cliente;
- bônus e operações “sem risco” com termos escondidos que travavam o saque;
- bloqueio sistemático de pedidos de retirada.
5. Isso significa que toda opção binária é fraude?
Não. Mas:
- muitos golpes recentes usaram o formato de opções binárias para enganar o varejo;
- a CFTC, a SEC e outros reguladores continuam emitindo alertas específicos sobre Binary Options Fraud;
- do ponto de vista de risco, opções binárias são produtos de alta complexidade e volatilidade, pouco adequados para iniciantes.
O problema não é só o produto em si, mas como ele é vendido e em que ambiente (regulado ou não).
6. Como posso me proteger se ainda quiser operar produtos binários ou event contracts?
- opere apenas em plataformas reguladas por autoridades sérias;
- nunca mande dinheiro para sites anônimos, sem endereço claro e sem registro;
- desconfie de salas de sinais, promessas de robô milagroso e prints perfeitos de lucro;
- limite sua exposição: uma parte pequena da banca, preparada para ser perdida.
Conclusão: inovação binária lá na frente, mas com o passado batendo na porta
O que essa dupla de notícias mostra é que:
- a CFTC está, ao mesmo tempo, olhando para o futuro, com um roundtable focado em prediction markets, event contracts e possíveis ajustes regulatórios;
- e acertando contas com o passado, via uma sentença de US$ 451 milhões contra um dos maiores esquemas de fraude em opções binárias já julgados.
Para quem está no mercado, a lição é direta:
produtos binários podem evoluir de nome, plataforma e embalagem,
mas, se o modelo de venda continuar baseado em promessa irreal de lucro rápido,
o regulador vai tratar tudo como parte do mesmo problema.
Se você cria conteúdo, educa traders ou opera nesse nicho, esse tema é excelente para:
- mostrar maturidade regulatória;
- diferenciar produto sério de golpe;
- e reforçar a mensagem de gestão de risco e responsabilidade com o dinheiro próprio e dos outros.
Se quiser, posso pegar esse conteúdo e transformar em:
- uma versão enxuta para e-mail (newsletter sobre regulação de binárias); ou
- um roteiro de vídeo explicando o caso dos US$ 451 milhões e o roundtable da CFTC, com CTA para a sua comunidade.



