A Polymarket ganhou sinal verde da CFTC para operar prediction markets regulados nos EUA, enquanto Nevada decidiu que os contratos esportivos da Kalshi são apostas, não derivativos. Entenda o que isso muda para os event contracts e onde termina investimento e começa gambling.
Nos últimos anos, o payoff binário parecia coisa de “plataforma de binárias” e corretora offshore. Em 2025, o jogo virou:
- a Polymarket conseguiu voltar regulada para o mercado americano, após anos banida, ao adquirir a exchange QCX e receber uma ordem de designação emendada da CFTC para oferecer event contracts via corretoras e FCMs dos EUA;
- ao mesmo tempo, um juiz federal em Nevada decidiu que a Kalshi deve seguir as leis de jogo do estado, tratando seus contratos de evento esportivos como apostas, não como swaps/derivativos exclusivos da CFTC, derrubando uma liminar que protegia a empresa.
Resultado:
prediction markets estão ficando mainstream e regulados de um lado
e sendo chamados de gambling do outro.
Neste artigo, vamos destrinchar:
- o que muda com prediction markets regulados como a Polymarket;
- por que o caso Kalshi x Nevada virou símbolo da briga “derivativo vs aposta esportiva”;
- e o que isso tudo sinaliza para o futuro dos event contracts e das “binárias on-chain”.
1. Prediction markets regulados: o retorno dos “binários on-chain” com selo CFTC
1.1 O comeback da Polymarket: de banida a exchange regulada
Em 2022, a Polymarket foi multada pela CFTC e obrigada a bloquear usuários americanos por operar um mercado de derivativos não registrado.
Em 2025, a estratégia mudou completamente:
- em julho de 2025, a Polymarket comprou a QCX por cerca de US$ 112 milhões; QCX e sua clearing já tinham as licenças da CFTC para atuar como derivatives exchange e clearinghouse;
- em novembro de 2025, a CFTC aprovou uma Amended Order of Designation, permitindo que a estrutura de QCX/Polymarket ofereça event contracts com acesso intermediado via corretoras (FCMs e brokerages dos EUA), usando a infraestrutura tradicional de custódia, margem e reporte.
Na prática, isso significa:
- a Polymarket deixa de ser “site cripto de aposta em evento” e passa a operar como exchange regulada, dentro do guarda-chuva da CFTC;
- U.S. users podem acessar prediction markets via suas corretoras, com processos de KYC, custódia e compliance alinhados ao mundo de futuros/opções.
O movimento ganhou um selo extra de credibilidade quando a Intercontinental Exchange (ICE), dona da NYSE, anunciou investimento de até US$ 2 bilhões na Polymarket, avaliando a empresa em cerca de US$ 8 bilhões pré-dinheiro e se posicionando como distribuidora global dos dados de eventos.
Ou seja:
não é só “startup cripto”
é infraestrutura de dados e derivativos sendo enxergada como nova linha de negócio institucional.
1.2 O que muda quando prediction markets passam a ser regulados
Com prediction markets regulados, três coisas mudam de forma relevante:
- Enquadramento jurídico mais claro (pelo menos do lado federal)
- A CFTC trata esses produtos como event contracts/binary options dentro da lógica da Commodity Exchange Act, sujeitando a exchange às mesmas obrigações de transparência, controle de risco e reporte que outros derivativos.
- Infraestrutura de mercado tradicional
- Acesso via corretoras, FCMs, custodians;
- processos de KYC/AML, margem e liquidação já consolidados em futuros/opções.
- Mainstreamização de dados de evento
- Grandes players de dados (como ICE, Google Finance, Yahoo Finance, etc.) começam a integrar preços de prediction markets em painéis públicos, transformando esses mercados em indicador de probabilidade “oficial” para eleições, política monetária, esportes e macro.
Do lado do usuário de varejo, isso traz vantagens (mais segurança operacional, menos risco de sumiço de plataforma), mas não muda o fato de que:
- o payoff continua binário, tudo-ou-nada;
- a chance de perda total em cada contrato é real;
- e operar sem gestão de risco continua sendo receita para desastre.
2. Kalshi x Nevada: quando um juiz diz que é aposta, não derivativo
2.1 O caso: Nevada vence a disputa contra a Kalshi
Enquanto a Polymarket avança via CFTC, a Kalshi, outra prediction market aprovada como DCM, foi atingida em cheio por uma decisão em Nevada.
Em novembro de 2025:
- o juiz federal Andrew Gordon, em Las Vegas, decidiu que a Kalshi está sujeita às leis de jogo de Nevada, não apenas à jurisdição exclusiva da CFTC;
- ele revogou uma liminar que impedia o Nevada Gaming Control Board de agir contra a empresa;
- e entendeu que os contratos de evento sobre esportes não se qualificam como “swaps” financeiros, mas sim como apostas, porque dependem de resultados esportivos incertos com expectativa de lucro.
Relatos da decisão destacam que o juiz:
- considerou que a interpretação da Kalshi minaria a autoridade histórica dos estados sobre gambling;
- e que aceitar a tese de “só a CFTC manda aqui” criaria um buraco gigante nas leis estaduais de jogo.
A Kalshi já anunciou que vai recorrer, mas, por enquanto:
Nevada ganhou o direito de tratar os sports event contracts da Kalshi como apostas não licenciadas, e agir em cima disso.
2.2 Outros estados na mesma rota, e o risco de virar caso de Suprema Corte
Nevada não está sozinha.
Matérias recentes apontam que:
- Maryland e outras jurisdições também questionam a oferta de contratos esportivos pela Kalshi, alegando que se tratam de apostas sem licença;
- alguns estados e grupos tribais vêm argumentando que permitir que a CFTC “preempte” as leis estaduais de gambling criaria uma rota alternativa para sports betting sem seguir o regime estadual tradicional.
Analistas já falam na possibilidade desse conflito chegar à Suprema Corte, porque envolve:
- limites entre regulação federal de derivativos (CFTC) e poder dos estados sobre jogo de azar;
- e a definição de até onde vai o conceito de event contract derivativo.
Para o ecossistema de opções binárias/event contracts, o recado é claro:
ser aprovado pela CFTC não garante que um estado não vá te chamar de casa de apostas, especialmente se o foco forem esportes.
3. Onde termina a opção binária e começa o gambling?
3.1 Do ponto de vista econômico, tudo é payoff binário
Tecnicamente, um event contract típico da Polymarket ou da Kalshi funciona assim:
- o contrato vale de 0 a 1 (ou 0 a 100);
- você compra “Sim” ou “Não” sobre um evento (“o Fed vai cortar juros?”, “time X ganha?”);
- se o evento ocorrer, recebe 1; se não, recebe 0.
Isso é exatamente o payoff de uma opção binária:
paga um valor fixo se a condição é verdadeira, zero se é falsa.
Do ponto de vista de risco:
- a probabilidade de perda total por trade é alta;
- a estrutura incentiva apostas frequentes;
- e o uso emocional (esporte, política, narrativa de rede social) fortalece o lado “aposta”.
O que muda, então?
Basicamente, contexto e enquadramento jurídico:
- quando o subjacente é preço de ativo, taxa, índice, a discussão tende a ficar mais no campo de derivativos;
- quando o subjacente é esporte, evento cultural, resultado político, estados e tribunais ficam muito mais confortáveis em chamar de gambling.
3.2 Critério prático: função econômica x entretenimento puro
A CFTC, no seu Notice of Proposed Rulemaking sobre event contracts, parte de um raciocínio em duas etapas:
- Ver se o contrato envolve atividades sensíveis (gaming, guerra, terrorismo, assassinato, atividade ilícita);
- Avaliar se ele serve a um interesse público legítimo, como hedge ou descoberta de preços.
Em linguagem de rua:
- se o contrato tiver função econômica clara (hedge de inflação, crédito, risco político de investimento real), a chance de ser tratado como derivativo é maior;
- se for basicamente “apostar se tal time vai ganhar” ou “se tal celebridade vai fazer X”, fica difícil defender que isso é algo além de entretenimento financeiro.
No meio desse caminho, há uma zona cinza gigante, exatamente onde estão muitas plataformas de prediction markets em 2025.
4. O que isso sinaliza para o futuro dos event contracts e das binárias 3.0
4.1 Cenário provável: dois mundos binários convivendo
Juntando Polymarket + Kalshi + CFTC, o quadro que aparece é algo assim:
- Mundo A binário regulado, com cara de infra de derivativos
- Exchanges como Polymarket operando via QCX, sob CFTC;
- investimento pesado de grupos como ICE;
- integrações com corretoras, FCMs, provedores de dados.
- Mundo B binário tratado como aposta, sob leis estaduais de gambling
- Kalshi e qualquer outro player que tentar empurrar sports event contracts como “swap” enfrentando resistência de estados como Nevada;
- exigência de licença de jogo, tools de responsible gambling, restrição de idade, etc.
Entre esses dois mundos, plataformas menores (on-chain ou não) vão precisar decidir:
- se querem ser derivativos sérios, aceitando regras mais duras de produto, compliance e transparência;
- ou se assumem a identidade de aposta, com toda a carga regulatória e reputacional que isso traz.
4.2 Para o trader brasileiro: qual é o aprendizado?
Mesmo operando de fora dos EUA, essa novela traz três lições importantes:
- Payoff binário continua sendo de alto risco
Não importa se está numa DCM da CFTC ou num smart contract on-chain: é tudo-ou-nada, e é fácil superexpor capital. - Regulação pode mudar o jogo da noite para o dia
O caso Kalshi mostra que uma decisão de tribunal pode, literalmente, travar uma linha de produto em um estado inteiro, isso vale também em outras jurisdições, inclusive no Brasil, conforme o tema ganhar relevância. - Marketing de “investimento” em produto que se comporta como aposta é sempre sinal amarelo
Se a plataforma vende event contracts como algo “seguro”, “previsível” ou “melhor que aposta comum”, desconfie.
FAQ, Prediction markets regulados, Polymarket e o caso Kalshi x Nevada
1. O que significa dizer que a Polymarket está “regulada pela CFTC”?
Significa que:
- via aquisição da QCX e de sua clearing, a Polymarket passou a operar como exchange e clearinghouse registradas na CFTC;
- ela pode listar event contracts e oferecer acesso a usuários dos EUA por meio de corretoras e FCMs, com obrigações de reporte, controle de risco e compliance típicas de derivativos.
Isso não torna o produto “seguro” no sentido de não ter risco, apenas dá um arcabouço regulatório mais sólido.
2. Polymarket é investimento ou aposta?
Depende de como você usa.
- Do ponto de vista regulatório, os contratos são tratados como derivativos de evento pela CFTC.
- Do ponto de vista econômico, o payoff é binário, tudo-ou-nada, com forte componente especulativo.
Para o varejo, faz mais sentido tratar como exposição especulativa de alto risco, não como investimento de longo prazo.
3. Por que Nevada decidiu que os contratos esportivos da Kalshi são apostas, e não derivativos?
O juiz federal de Nevada entendeu que:
- os contratos esportivos da Kalshi se enquadram na definição de gambling da lei estadual, porque envolvem ganho financeiro baseado em resultados esportivos incertos;
- classificá-los como “swaps” sob exclusiva jurisdição da CFTC enfraqueceria o poder do estado de regular jogo.
Com isso, Nevada pode exigir que a Kalshi cumpra todas as regras de jogo do estado para esse tipo de produto.
4. O que o caso Kalshi x Nevada sinaliza para outros prediction markets?
Sinaliza que:
- ter aprovação da CFTC não blinda uma plataforma de ações de estados, principalmente quando o subjacente é esportivo;
- outros estados podem seguir a mesma lógica, exigindo licença de jogo e regras de responsible gambling para event contracts de esporte.
Isso adiciona uma camada de incerteza regulatória em cima de um produto que já é, por natureza, arriscado.
5. Prediction markets regulados são mais seguros que opções binárias offshore?
Em termos de infraestrutura e governança, sim:
- exchanges como Polymarket/QCX precisam seguir regras de capital, clearing, reporte e supervisão da CFTC;
- isso reduz o risco de sumiço da plataforma, manipulação grosseira ou bloqueio arbitrário de saque.
Mas em termos de risco de mercado, não:
- o payoff continua binário;
- você continua podendo perder 100% do valor apostado em cada contrato.
A diferença é que, num ambiente regulado, pelo menos você sabe com quem está lidando e quais são as regras do jogo.
Conclusão: prediction markets viram mainstream, mas a pergunta continua a mesma, trade ou aposta?
A Dupla 2 que você trouxe resume bem o momento:
- de um lado, Polymarket voltando aos EUA com selo da CFTC, investimento pesado da ICE e integração com corretoras, transformando prediction markets em uma extensão natural da infraestrutura de derivativos;
- de outro, Kalshi x Nevada mostrando que, quando o assunto é esportes, tribunais e reguladores estaduais não têm medo de chamar event contracts de aposta e aplicar leis de gambling por cima da narrativa de “derivativo”.
Para quem cria conteúdo ou opera nesse nicho, as mensagens-chave são:
- Prediction markets regulados não são brincadeira, estão virando parte do stack institucional de dados e derivativos.
- A fronteira entre derivativo e aposta está aberta, especialmente em esportes, e vai continuar sendo disputada nos tribunais.
- Do ponto de vista do varejo, o produto continua sendo binário, especulativo e de alto risco, independentemente do rótulo.



